
Setenta anos não cabem numa data. Cabem no jeito que você atravessou o que era difícil sem fazer barulho - no cheiro de café que virou rotina, nas mãos que ensinaram sem saber que ensinavam. O tempo fez em você o que faz nos bons livros: aprofundou o que já era bom, deixou mais claro o essencial, descartou o que não valia a pena. Setenta anos. Não como peso que se carrega - como paisagem que se contempla. Eu te olho hoje e penso no quanto foi preciso para chegar aqui assim: inteiro, de olhos abertos, ainda capaz de se surpreender. Isso não é pouco. Isso é tudo.
























