Dois anos, e o que sinto ainda não tem nome certo

Tem coisas que o calendário registra, mas não consegue explicar. Dois anos no papel parecem um número simples - vira a página, soma mais um. Mas quando é você, quando é a gente, não tem conta que dê conta do que aconteceu aqui dentro. Eu lembro do começo como se fosse uma maré que chegou devagar e me pegou desprevenida. Não foi trovão, não foi tempestade. Foi aquela água que sobe quietinha e, quando você percebe, já tomou tudo - e você nem quer que recue. Nesses dois anos, aprendi que amar alguém de verdade é também aprender a se ver nos olhos de outra pessoa. Você me mostrou partes minhas que eu não sabia que existiam. Me devolveu palavras que eu tinha engolido, silêncios que eu não sabia habitar, risos que eu tinha esquecido o sabor. Não é que tudo foi fácil. Tivemos ventanias, dias em que o céu fechou entre a gente e nenhum dos dois sabia como abrir. Mas cada vez que a névoa passou, eu te vi mais claro. E quis ficar. Hoje, dois anos depois daquela maré que me surpreendeu, o que eu sinto não é euforia de começo - é algo mais parecido com raiz. Com chão. Com a certeza tranquila de que o melhor jardim que já cultivei tem o seu nome no meio.
· Júlia Marques



