Vinte anos - e eu ainda escolheria você na primeira frase

Vinte anos não cabem num calendário. Cabem numa forma de dobrar o travesseiro, num silêncio que não pesa, numa mão que sabe o caminho de volta sem precisar de luz. Eu poderia listar tudo - as viagens, as crises, as manhãs ordinárias que viraram as mais bonitas da minha vida. Mas o que mais me atravessa é isso: você me viu mudar de forma várias vezes e continuou me reconhecendo. Isso é raro. Isso é quase impossível. A gente construiu algo que não tem nome exato. Não é só amor - é território. É o cheiro de casa que existe onde quer que você esteja. É a certeza de que, quando o mundo vira de ponta-cabeça, tem um chão aqui com o seu nome gravado. Vinte anos passaram como um rio que nunca para, mas também como uma pedra que fica - presente, firme, real. E eu fui os dois: a água que muda e a pedra que permanece, porque aprendi com você que é possível ser as duas coisas ao mesmo tempo. Hoje não quero fazer discurso. Só quero que você saiba que, se eu pudesse voltar ao começo com tudo que sei agora, eu escolheria cada detalhe de novo. Inclusive os dias difíceis. Inclusive o medo. Inclusive tudo que doeu - porque dói só o que importa de verdade.
· Júlia Marques



