Paletó na cadeira e a coragem que herdei
Guardo a imagem do seu paletó pendurado na cadeira da sala, com cheiro de chuva e estrada. É assim que lembro do meu padrinho: chegando depois do trabalho, mas inteiro, atento ao que eu dizia e, sobretudo, ao que eu calava. Você não foi barulho; foi medida. No teatro da escola, nas conversas sobre livros, na arte de arrumar uma estante, ensinou que cuidado é detalhe e que coragem também se treina. Como em Drummond, havia pedras. Você me mostrou que dá para observá-las sem dramatizar, contornar quando possível e mover quando for necessário. Da sua mão aprendi a palavra certa no tempo certo, a firmeza sem aspereza, o humor que devolve leveza aos dias mais pesados. Hoje, no seu aniversário, quero agradecer por essa presença que não exige holofote e sustenta caminhos. Desejo tempo largo, saúde mansa, amigos leais, projetos que encontrem chão. Que os próximos meses tragam pequenas epifanias: café passado com calma, boas leituras, risos à mesa, viagens curtas com janelas abertas. Se um dia eu ocupar o lugar de conselheira para alguém, é porque vi em você o exemplo possível. Receba meu abraço que não cabe em palavras e a certeza de que sua história pulsa na minha. Feliz aniversário, padrinho.
· Profa. Beatriz Coelho


