Coisas pequenas que o tempo tornou indispensáveis
As migalhas de pão espalhadas na mesa, é sempre assim aos domingos - são os restos silenciosos da pressa que você carrega. Já reparei em como seus óculos embaçam no vapor do café, e a forma exata como você se inclina para ouvir - toda atenção que se dá de presente sem saber. O tempo com você tem o peso discreto de uma pedra no bolso, daquelas que guardamos pela textura exata e não pela beleza. Há silêncio entre nós às vezes; ele não é ausência, mas espaço fértil onde cabe tudo. Talvez por isso, como um verso de Drummond que nunca se fecha de todo, eu sempre volto a você, tentativa após tentativa de rito. Hoje, celebro a sorte de tropeçar esses detalhes: tua voz na sala vazia, tufo de risos atrás da porta, e esse jeito estranho que a vida encontrou de ser casa em ti.
· Profa. Beatriz Coelho



