Setenta e cinco anos: você virou paisagem dentro de mim

Tem gente que a gente aprende a admirar. E tem gente que a gente simplesmente carrega - sem escolha, sem esforço, como se ela fosse parte do que nos constitui. Você é do segundo tipo. Setenta e cinco anos não é número que caiba numa frase de bolo. É uma vida inteira que teve capítulos difíceis de virar, páginas que ninguém mais vai ler, e parágrafos tão bonitos que eu ainda repito pra mim mesma quando preciso lembrar que o mundo pode ser generoso. Eu observei você atravessar coisas que teriam dobrado qualquer um. E você não saiu inteiro - ninguém sai. Mas saiu de um jeito que eu não consigo chamar de outra coisa senão dignidade. Essa palavra, que virou clichê na boca dos outros, em você ainda tem peso, ainda tem substância. Drummond escreveu que 'no meio do caminho tinha uma pedra'. O que ele não disse é o que fazemos com ela. Você fez passagem. Fez degrau. Às vezes fez jardim. Hoje, ao seu lado, não trago só parabéns. Trago o reconhecimento de quem prestou atenção. De quem viu. De quem aprendeu mais do que soube agradecer na hora certa. Feliz aniversário - e obrigada por tudo que você nem sabe que me ensinou.
· Profa. Beatriz Coelho

