Sessenta e cinco anos: tudo o que você construiu ainda respira

Tem gente que atravessa os anos como quem cumpre tabela - marca presença, vira página, segue. Você nunca foi assim. Cada ano que passou em você virou camada: sedimento, raiz, alguma coisa que sustenta o que vem depois. Sessenta e cinco anos não são um número redondo pra comemorar com bolo e papel picado. São a soma de tudo que você escolheu segurar quando era mais fácil largar. Das madrugadas que ninguém sabe. Das vezes que você disse 'tá bem' quando não estava, e das que você disse 'não' quando custou caro dizer. Eu olho pra você e penso no quanto aprendi sem perceber - não por discurso, mas por exemplo. A forma como você trata o que é pequeno com o mesmo cuidado do que é grande. A teimosia bonita de continuar acreditando no que a maioria já desistiu. Se a vida fosse um jardim, você seria aquela árvore que todo mundo usa como referência de caminho. A que dá sombra sem pedir nada em troca, mas que também floresceu - e como floresceu. Hoje eu quero que você sinta, por um momento, o peso bonito de tudo o que você é. Não só o que fez, não só o que deu: o que você é. E que os anos que ainda vêm cheguem como luz entrando por janela aberta - com calma, com cor, com tudo que você merece.
· Júlia Marques


