Quando o café esfria, lembro do meu tio
Xícara de esmalte na varanda, vapor desenhando mapa breve no ar frio. O vento sul risca as janelas, e penso em você, tio, como quem afia lápis antes da carta. Foi com você que aprendi a medir os pregos, a escutar o barulho do bairro, a respeitar os silêncios. No domingo, seu riso acende a cozinha; o relógio cansa e a conversa apura o caldo. Você não promete milagres: conserta o rádio, ajeita a dobra do lençol, encoraja com a mão firme no ombro. Cecília diria que o tempo é tecido; você costura os dias com linha resistente. Hoje, sopro o pó da mesa e abro espaço para o bolo, para o brinde simples que não pede fanfarra. Que este aniversário te alcance lúcido e leve, com saúde nos passos e curiosidade nos olhos. E que a vida, como disse Drummond, caiba inteira no bolso do seu casaco, sem perder o brilho do caminho.
· Profa. Beatriz Coelho

