Fita nos sapatos e coragem no olhar, neta
A primeira fita que amarrei nos seus sapatos ficou torta, e ainda assim você partiu, rindo, em reta absoluta para o quintal. Ali entendi que coragem não pede simetria, pede impulso. Hoje, nessa data em que o calendário te aplaude, olho para trás e vejo uma sequência de passos: o primeiro desenho no imã da geladeira, os joelhos esfolados, o livro que você não largou até o fim da tarde fria. Ser sua avó me ensinou a tempo elástico: minutos que se alargam quando você conta uma descoberta e anos que passam depressa quando a barra da sua calça de repente fica curta. A literatura sempre me serviu de abrigo, e gosto de pensar que, como sussurrou Cecília, o tempo também sabe ser delicado quando a alma presta atenção. Você presta. Meu desejo é simples e exigente: que seus afetos sejam casa, que sua curiosidade mantenha acesa a lâmpada no alto da cabeça, que você escolha com calma e defenda com firmeza. Se o mundo parecer duro, respire, organize as ideias e lembre que gentileza não é fragilidade, é método. E quando vier a alegria, receba sem modéstia. Siga experimentando, errando com responsabilidade e acertando com generosidade. Estou aqui, inteira, para te aplaudir no que for grande e no que parecer pequeno, porque em você tudo importa. Hoje te celebro, minha neta.
· Profa. Beatriz Coelho

