Mar batendo na janela do seu dia novo
Começo o dia ouvindo o mar encostar na calçada, como quem bate à porta pedindo passagem. É seu aniversário e a cidade respira um vento mais claro, desses que ajeitam o cabelo e abrem espaço no peito. Penso no que aprendi no caminho entre a pia e a janela: sua voz me ensinando a respeitar os silêncios, sua risada acendendo a casa, seu cuidado amarrando o mundo com barbante, firme e simples. Seus gestos são mapas: o jeito de provar o molho e ajustar o sal, a precisão de quem entende que o tempo das coisas não se apressa. Com você descobri que amar é cultivar jardim, regar mesmo quando a nuvem ameaça, esperar as cores romperem a terra. Eu cresci nessa sombra fresca, entre louça esfriando e jasmim noturno, e cada vencida me lembra sua mão no meu ombro, dizendo sem dizer: vai, mas volta pra contar. Que este ano vire página com vento de orla e maré mansa. Que seus passos encontrem ruas onde a luz se demora nas varandas e as conversas não têm pressa. Se houver tempestade, eu aparo o guarda-chuva; se for dia de sol, preparo o café e abro as janelas. Te desejo riso que ecoa pela casa, descanso merecido e coragem nova. Hoje, mãe, meu abraço é casa e meu texto é o bolo saindo do forno.
· Júlia Marques



