Quando o vento vira página dentro de você
Mar de manhã, a maré baixa revela conchas inteiras. Penso em você assim, com o dia abrindo passagem e o espírito arejado pela brisa que entra. Hoje o calendário faz barulho, mas é por dentro que algo se move: vento que vira a página, luz que encontra lugar. Não é acaso: há escolhas antigas soprando nos seus ombros, trabalhos feitos e sementes guardadas para este agora. Quem te vê rindo não imagina os resgates silenciosos, a coragem mansa com que você tem alinhado causa e efeito, passo e sentido. Na visão que me guia, ninguém chega a este porto por engano. Reencarnar é aceitar um caderno com margens de areia: algumas linhas vêm desenhadas, outras você escreve na maré do livre-arbítrio. Entre encontros que retornam e lições que amadurecem, seu coração tem escolhido crescer sem fazer alarde. E quando o vento aperta, você ergue vela, consulta o silêncio, confia no amparo discreto que a vida organiza quando a intenção é limpa e o gesto é sincero. Que o ciclo que se abre traga chão sob os pés e horizonte aberto. Que o que não serve seja levado como espuma, e que o mar te devolva conchas com o nome das suas alegrias. Cuide do jardim que floresce em você: regue com presença, adube com gentilezas, ofereça sombra a quem precisa. Se tiver de escolher, escolha a paz que age. Que sua luz siga útil, bela e simples, iluminando caminhos sem querer aplauso. Hoje, o tempo te saúda; o espírito sorri.
· Júlia Marques



