Cinquenta anos juntos: a história que nenhum livro consegue contar

Cinquenta anos. Eu fico tentando transformar esse número em imagem e não consigo. Não é um rio que simplesmente correu - é um delta inteiro, com braços que se abriram, se fecharam, voltaram a encontrar o mesmo leito. É a prova de que duas margens podem sustentar a mesma água por tanto tempo sem se desgastar, só se tornarem mais fundas. Eu cresci vendo vocês e aprendi, antes de entender com palavras, que amor não é um estado permanente de leveza. É também o peso dividido sem reclamar, a manhã cansada encarada lado a lado, o silêncio que já não precisa de explicação porque o outro já sabe. Isso não se ensina. Isso se vive - e vocês viveram. Cinquenta anos são cinquenta versões de si mesmos que escolheram continuar. Cinquenta primaveras que floresceram mesmo nas estações que quiseram ser inverno. E cada uma dessas versões deixou marca - nas mãos que se pegaram de novo, nos olhos que aprenderam a ver mais fundo do que no primeiro dia. Hoje não é só uma data. É o ponto mais alto de uma paisagem que vocês construíram juntos, pedra por pedra, silêncio por silêncio, riso por riso. Obrigada por me deixarem ver que amor verdadeiro não é perfeição - é escolha. Repetida. Todos os dias. Por cinquenta anos.
· Júlia Marques



